Notas de Imprensa

27 de Fevereiro de 2015

Comité de Política Monetária

O Comité de Política Monetária do Banco Nacional de Angola (CPM/BNA) reuniu-se no dia 27 de Fevereiro, na sua quadragésima primeira sessão ordinária, a segunda do ano de 2015. Com vista à tomada de medidas de política monetária que concorram para a manutenção da estabilidade de preços na economia nacional, foi analisada a evolução da inflação, da economia real, das contas fiscais e monetárias, bem como a informação recente sobre a conjuntura económica internacional e dos países da região da SADC. A análise foi feita com base em informação referente ao primeiro mês do ano corrente.

I. DESENVOLVIMENTOS RECENTES DAS ECONOMIAS: INTERNACIONAL E REGIONAL

Os principais organismos mundiais (FMI, Banco Mundial e OCDE), que realizam previsões económicas, continuam a prever um crescimento económico muito ténue e uma diminuição da taxa de inflação, agravada pela queda das commodities alimentares e energéticas. Importa referir que os modelos de política monetária tradicional estão aparentemente esgotados, dado que os principais bancos centrais têm injectado liquidez sem precedentes no sistema financeiro, têm reduzido as taxas de juro para níveis muito baixos, e os níveis de endividamento público têm aumentado em muitos países, sobretudo os das economias periféricas da Zona Euro, o que tem suscitado dúvidas quanto à capacidade de actuação da política fiscal.

Economias Desenvolvidas

Dados económicos recentes relativos às economias avançadas indicam que a taxa de crescimento do PIB real deverá subir 1,8% em 2014 e 2,4% em 2015, destacando-se o crescimento económico dos EUA e do Reino Unido, contrapondo com o crescimento lento da Zona Euro e do Japão.

Em Janeiro de 2015, a Zona Euro e o Reino Unido registaram uma queda do nível geral de preços, tendo sido particularmente intensa nos combustíveis/custos de transporte, nas classes de despesa dos produtos alimentares, bebidas e tabaco. Os dados referentes a inflação de Janeiro de 2015, para os EUA e o Japão ainda não estão disponíveis, entretanto em Dezembro, a taxa de inflação desses países também desacelerou, sobretudo devido (i) à valorização do Dólar, que torna mais baratas as importações, (ii) à queda dos preços do petróleo, que dificultou o objectivo do programa de estímulos económicos, e (iii) à implementação de reformas estruturais.

No mercado cambial, no mês de Janeiro, o Dólar norte-americano apreciou-se face ao Euro em 7,0%. A decisão do BCE em ampliar o programa Quantitative Easing de compra de dívida pública, para além de inflação e taxas de juro negativas registadas na Zona Euro, contribuiu para o sentimento desfavorável da moeda europeia em termos de investimento. De forma contrária, o Dólar depreciou-se face à Libra 3,4%, mesmo após dados mostrarem que a inflação ao consumidor no Reino Unido desacelerou para uma taxa anual ajustada sazonalmente de 0,5% face a 1,0% no mês anterior. Também o Dólar perdeu valor em relação ao Iene, cerca de 2,0%, após um relatório preliminar mostrar que a produção industrial japonesa subiu 1,0% em Dezembro de 2014.

No que concerne à política monetária, verifica-se uma divergência no sentido de actuação dos quatro maiores bancos centrais, com a Reserva Federal norte-americana (Fed) e o Banco de Inglaterra (BoE) a prepararem-se para aumentarem as suas taxas directoras, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ) que continuam com o programa de estímulos monetários. Neste âmbito, nos próximos meses as taxas de juro deverão manter-se próximas de zero.

Economias Emergentes

O desempenho do grupo das economias emergentes foi negativo em 2014. Entre estes destacam-se o designado grupo dos BRICS, embora no caso da China as expectativas se tenham estabilizado para os 7,4%. Efectivamente, em relação a este grupo de países, destaca-se o enorme reajustamento em baixa das previsões de crescimento desde 2012, quando ainda se esperava que este grupo de países registasse uma expansão em torno de 6,5% em 2014. As estimativas mais recentes apontam para níveis de crescimento em torno de 4,3%, pontuando pela negativa a Rússia e o Brasil, embora por motivos diferentes.

Em Janeiro de 2015, a taxa de inflação registou um comportamento misto neste grupo de países, tendo acelerado na Rússia 3,60 p.p. para os 15,00%, Brasil 0,73 p.p. para os 7,14% e Índia 0,11 p.p. para os 5,11%, respectivamente; e desacelerado na China 0,70 p.p. para os 0,80%.

As moedas dos países emergentes depreciaram-se face ao Dólar norte-americano no mês de Janeiro, com destaque para o Rublo russo que depreciou-se 13,43%, essencialmente devido à queda nas exportações de petróleo e às sanções ocidentais em consequência da crise ucraniana, ao aumento do valor do IPC para uma taxa anual ajustada sazonalmente de 2,6% e à redução inesperada da taxa básica de juros para 15,0%.

Por outro lado, os bancos centrais deste grupo de países assumiram comportamentos distintos, tendo o Banco Central do Brasil elevado a taxa directora para os 12,25% (+0,50 p.p.). Por conseguinte, o Banco Central da Rússia cortou a taxa de referência para os 15,0% (-2,00 p.p.), depois de ter elevado para os 17,0% (+6,50 p.p.) em meados de Dezembro de 2014. Adicionalmente, o Banco Central da Índia cortou a sua taxa de política monetária em 0,25 p.p. para os 7,75% numa reunião extraordinária realizada no dia 15 de Janeiro, com o objectivo de impulsionar o crescimento diante da desaceleração da inflação. Enquanto que o Banco Popular da China manteve a sua taxa de juro nos 5,60%.

Economias da SADC

De acordo com as previsões do FMI, o crescimento da região deverá acelerar para 4,9% em 2015, impulsionado pelos investimentos nas indústrias extractivas e infra-estruturas, e suportado pela crescente ligação às economias asiáticas. A recente queda dos preços do petróleo deverá ter um impacto negativo sobre os principais exportadores da região, nomeadamente sobre a Angola, Moçambique, República Democrática do Congo (RDC) e Nigéria, fora da SADC. A trajectória de crescimento na África do Sul continua pouco favorável ainda que se espere que a normalização da situação no mercado de trabalho permita uma recuperação da actividade.

Em Janeiro de 2015, a trajectória da inflação foi de desaceleração na maioria das economias da SADC, tendo desacelerado 0,90 p.p. na Africa do Sul para os 4,40%, 0,04 p.p. em Angola para os 7,44%, 0,13 p.p. no Botswana para os 3,60%, 0,10 p.p. na Namíbia para os 4,50%, 0,80 p.p. na Tanzânia para os 4,00%, 0,20 p.p. na Zâmbia para os 7,70%, 3,00 p.p. no Malawi para os 21,20% e 0,48% no Zimbabué para os -1,28%. Contudo, registou-se uma aceleração nas Maurícias de 0,50 p.p. para os 0,70%, em Moçambique de 0,86 p.p. para os 2,79% e nas ilhas Seychelles de 1,00 p.p. para os 1,50%.

Relativamente ao mercado cambial, no mesmo mês registou-se uma depreciação mensal das moedas das economias da região em relação ao Dólar norte-americano. O Dólar apreciou-se frente às suas congéneres da SADC, com destaque para a Tanzânia, Moçambique e Zâmbia. Contudo, as moedas do Malawi e Seychelles apreciaram-se face ao Dólar norte-americano, respectivamente.

Todos os bancos centrais da região optaram pela manutenção das suas taxas de juro de referência, com excepção das Seychelles, que diminuíram as taxas de juro de 11,17% para os 10,53%, menos 0,64 p.p..

Commodities:

No mês de Janeiro, a evolução dos preços do petróleo manteve a tendência decrescente, tendo-se registado uma descida dos preços abaixo dos 50 dólares por barril, pela primeira vez desde Abril de 2009. Verifica-se a existência de um desfasamento entre o crescimento da procura abaixo das previsões (destacando-se o lento ritmo de crescimento económica na Europa e o abrandamento da actividade industrial na China) e um excesso de crescimento da oferta (principalmente, derivado da produção de gás de xisto e da decisão da OPEP de não cortar na produção). Porém, no final de Janeiro, começou-se a observar uma recuperação dos preços, que regressaram actualmente a níveis de Dezembro de 2014, situação esta que é justificada pela redução do investimento das empresas petrolíferas e ou adiamento/cancelamento de novos projectos, o que reduz consideravelmente as perspectivas de crescimento da produção petrolífera em 2015.

No mercado das commodities alimentares, os preços do trigo e dos óleos vegetais voltaram a cair em Janeiro de 2015. Esta queda de preços prende-se maioritariamente com o excesso de oferta, a apreciação do Dólar no mercado internacional e a redução dos custos de produção face ao colapso dos preços do petróleo.

Petróleo e Gás Natural

Apesar das baixas temperaturas registadas no Hemisfério Norte, o preço do gás natural manteve uma tendência decrescente (-7,10% para os 2,69 dólares/MMBtu), situando-se em níveis mínimos de 2012. Mesmo com alguma pressão originada pelo conflito entre a Ucrânia e a Rússia e da queda do PIB no Japão, o factor que domina a actual tendência é a expansão da produção de gás de xisto nos EUA. Assim, os preços médios de petróleo registaram uma queda quando comparado com o mês anterior, tendo o Brent se situado em 49,76 USD por barril, (-24,02%); e o WTI passou para os 47,37 USD por barril (-22,40%). A redução dos preços do petróleo foi também afectada pela apreciação do Dólar norte-americano, pela política monetária do Japão, pelo aumento dos stocks de petróleo nos EUA, pelos sinais de abrandamento da economia global e pela forte concorrência dos países membros da OPEP.

Bens Alimentares

Especificamente, o Índice de Preços de Alimentos da FAO foi em termos médios 182,7 pontos em Janeiro de 2015, uma queda de 3,6 pontos (-1,93%) em relação ao valor revisto em Dezembro de 2014. Enquanto que os preços do açúcar e dos produtos lácteos ficaram praticamente inalterados, os preços das outras commodities alimentares caíram em Janeiro, com os preços dos cereais e óleos a registarem as quedas mais fortes.

O Índice de Preços dos Cereais da FAO foi em média 177,4 pontos em Janeiro, uma queda de 6,6 pontos (-3,64%) face a Dezembro. Este declínio acentuado foi motivado sobretudo por uma redução de 7,0% nos preços internacionais do trigo e 1% nos preços do arroz. A queda acentuada dos preços do trigo reflecte a confirmação de uma situação de excesso de oferta nesta temporada. Enquanto que o Índice de Preços dos Óleos Vegetais da FAO foi em média 156,0 pontos em Janeiro, uma queda de 4,7 pontos (-2,96%) em relação a Dezembro, o seu nível mais baixo desde Outubro de 2009. Os preços do óleo de palma e de soja caíram, reflectindo a fraca procura de importação de óleo de palma e excesso de oferta de soja. Além disso, a queda nos preços do petróleo continuaram a pesar sobre os preços de óleo vegetal usados como matéria-prima do biodiesel.

No lado das manutenções, destaca-se o Índice de Preços dos Lacticínios da FAO que foi em termos médios 173,8 pontos em Janeiro, essencialmente o mesmo nível que em Dezembro (-0,11%). A diminuição dos preços dos queijos e leite em pó desnatado foram compensados por um aumento no preço da manteiga, leite em pó integral. A depreciação do euro contribuiu para a convergência de preços das exportações da Europa com os preços das exportações da Oceânia e dos EUA. Já o Índice de Preços da Carne da FAO foi em média 194,3 pontos em Janeiro, uma queda de 3,2 pontos (-1,64%) do seu valor registo em Dezembro. Os principais produtos afectados foram a carne de suíno da Europa, a carne bovina da Austrália e da carne ovina da Nova Zelândia. Além disso, o excesso de oferta continuou a pesar sobre os preços da carne de suíno. Por fim, o Índice de Preços do Açúcar da FAO foi em média 217,7 pontos em Janeiro, praticamente inalterado desde Dezembro de 2014 (0,12%). A incerteza quanto à nova colheita de açúcar do Brasil, que normalmente começa em Abril, sustentou os preços de exportação. No entanto, o seu efeito sobre o índice foi em grande parte neutralizado por expectativas no lado da oferta nas principais áreas produtoras de açúcar, incluindo a Índia, Tailândia, e UE.

II. DESENVOLVIMENTOS RECENTES DA ECONOMIA NACIONAL 

Inflação

Em Janeiro, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de inflação foi de 0,72%, após uma variação superior de 0,73% em Dezembro de 2014. Igualmente, a inflação homóloga retrocedeu para 7,44%, tendo a Classe 01 – “Alimentação e Bebidas Não-Alcoólicas”, sido determinante no comportamento da inflação no mês em análise e contribuído com 0,20 p.p. (28,04%) da inflação mensal observada, um valor superior em 0,07 p.p. quando comparado com a contribuição do mês anterior. As Miudezas de vaca, a Carne de Primeira, as Coxas de Frango e o Tomate foram os produtos que mais contribuíram para a variação da Classe 01.

Em termos de variação, a Classe 07 – “Transportes”, registou a maior variação de preços (1,59%).

A inflação acumulada no mês de Janeiro de 2015 é de 0,72%, uma diminuição quando comparada com os 0,76% observados no mesmo período de 2014. Ainda de acordo com os índices de preços do INE, os produtos da cesta básica que mais variaram foram a Carne Seca de Vaca (0,90%), o Sabão (0,86%) e o Sal (0,51%).

Contas Monetárias

No sector monetário, dados relativos a Janeiro de 2015 mostram que a Base Monetária em moeda nacional registou um saldo de Kz 879.618 milhões, que correspondeu a uma diminuição mensal de Kz 50.903,11 milhões (5,47%), reflectindo-se na diminuição das Notas e Moedas em Circulação Kz 63.192,66 milhões (13,22%), já que os Depósitos dos bancos comerciais em moeda nacional aumentaram em Kz 12.289,55 milhões (2,72%).

As contas monetárias de Janeiro indicam uma contracção mensal dos depósitos totais do sistema bancário em cerca de Kz 50.744,38 milhões (1,07%), uma expansão do crédito à economia em Kz 26.701,77 milhões (0,91%), do crédito a outros residentes em Kz 28.513,12 milhões (1,00%) e do crédito ao sector público, excluindo administração central em Kz 1.771,76 milhões (2,88%). Enquanto isso, o agregado monetário mais amplo (M3), composto pelas notas e moedas em circulação, pelos depósitos ordem e a prazo e pelos outros instrumentos financeiros, diminui no período em análise, em Kz 83.193,25 milhões (1,63%), atingindo um valor de Kz 5.026.918 milhões.

No Mercado Monetário, as taxas de juros médias ponderadas da subscrição dos Bilhetes do Tesouro (BT’s) com a maturidade de 91, 182 dias e 364 dias aumentaram em 0,34 p.b., 0,26 p.b e 0,49 p.b., atingindo os 6,77%, 7,37% e 7,96%, respectivamente. Por sua vez, a taxa LUIBOR Overnight aumentou em 77 p.b. ao atingir os 6,16% ao ano, e em 8,29% e 9,75% nas maturidades de 3 e 12 meses.

No mês em análise, o stock das reservas internacionais brutas reduziu, passando de 27.477,74 milhões de dólares para os 26.956,92 milhões de dólares, o que representa uma diminuição de 1,91% em termos mensais.


Em Janeiro, os bancos comerciais adquiriram divisas no valor de USD 1.800 milhões no mercado cambial.

A taxa de câmbio média de referência do Kwanza em relação ao Dólar norte-americano situou-se em 104,17 Kwanzas no final do mês de Janeiro de 2015.

III. DECISÕES DO COMITÉ DE POLÍTICA MONETÁRIA

Da análise efectuada à evolução recente e às perspectivas para a economia angolana, o Comité de Política Monetária, com o propósito de continuar a influenciar a redução dos custos de intermediação financeira, em particular das taxas de juro do crédito à economia, decidiu: 

  • Manter a Taxa Básica de Juro - Taxa BNA – em 9,00% ao ano; 
  • Manter a Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez em 9,75% ao ano;
  • Manter a Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez em 0,00% ao ano.

A próxima reunião do Comité de Política Monetária terá lugar no dia 30 de Março de 2015.