Notas de Imprensa

27 de Agosto de 2014

Comité de Política Monetária

O Comité de Política Monetária do Banco Nacional de Angola (CPM) reuniu-se no dia 28 de Agosto, na sua trigésima quinta sessão ordinária, a oitava do ano de 2014. Tendo em vista a tomada de medidas de política monetária que concorram para a manutenção da estabilidade de preços na economia nacional, foi analisada a evolução da inflação, da economia real, das contas fiscais e monetárias, bem como a informação recente sobre a conjuntura económica internacional e dos países da SADC. A análise foi feita com base em informação referente ao mês de Julho do ano corrente.

I. DESENVOLVIMENTOS RECENTES DAS ECONOMIAS: INTERNACIONAL E REGIONAL

Recentemente, o FMI actualizou o World Economic Outlook, onde reforça a ideia de que a retoma económica para a economia mundial para 2014 proceder-se-á de forma mais lenta, com um I trimestre mais negativo do que se esperava nas principais economias desenvolvidas e em desenvolvimento. Para o II trimestre de 2014, a actividade económica deve acelerar de forma moderada, embora compense apenas parcialmente o contratempo ocorrido no I trimestre. Particularmente, o I trimestre ficou marcado por vários factores negativos: nos EUA, a diminuição dos inventários das empresas condicionou a actividade empresarial. Na China, a procura interna desacelerou mais do que o esperado. E, na Rússia, o conflito com a Ucrânia paralisou a economia, com a aplicação de sanções económicas. A Zona Euro, por seu turno, cresceu de forma assimétrica, com as políticas de austeridade implementadas nos países periféricos.

Economias Desenvolvidas

No caso dos EUA, o FMI reviu em baixa o PIB para 2014, devendo crescer apenas 1,70%, quando no final do ano passado se projectava 2,80%. O Fundo salienta ainda que a correcção nos inventários das empresas travou o crescimento do I trimestre, embora esse factor tenha sido temporário. Mas alerta que deixou marcas no investimento e na economia, sendo a sua recuperação mais moderada do que era esperado. Na Zona Euro mantém-se a previsão de crescimento económico de 1,10%, liderada pela Alemanha e Espanha, que deverão crescer 1,90%, e 1,20%, respectivamente. As previsões optimistas da Alemanha e Espanha serão anuladas por outras duas grandes economias, França e Itália, cujo PIB anual foi revisto em baixa em ambos os casos para  0,70% (-0,30 p.p.) e 0,30% (-0,30 p.p.) respectivamente. Excepcionalmente, o Japão e o Reino Unido, apresentam um desempenho mais forte do que o esperado no I trimestre, com uma projecção de crescimento para 2014 de 1,60% (+0,20 p.p.) e 3,20% (+0,30 p.p.), principalmente, devido ao desenrolar dos estímulos económicos.
Quanto à taxa de inflação da Zona Euro, situou-se, no mês de Julho em 0,40% contra  0,50% no mês anterior, aumentando os receios de uma eventual deflação, sobretudo nos países periféricos da Zona Euro. Paralelamente, no Reino Unido o índice de preços ao consumidor (IPC) passou de 1,90% para  1,60% em Julho, devido principalmente à descida dos preços no retalho têxtil. Enquanto nos EUA a inflação passou de 2,10% para  2,00% em Julho (-0,10 p.p.). Já o IPC manteve-se estável em 3,70% em Junho, em termos anuais, devido sobretudo ao aumento de imposto sobre as vendas em Abril.

No mês de Julho de 2014, o Dólar norte-americano registou ganhos em relação ao Euro, à Libra e ao Iene, de 2,25%, 1,27% e 1,53%, respectivamente. No caso do Euro, a moeda única foi influenciada pela desaceleração da taxa de inflação na Zona do Euro para  0,40% em Julho e pelos cortes de postos de trabalho nas fábricas. No caso da moeda britânica, a Libra depreciou por força dos dados da economia britânica sobre o sector industrial e do menor crescimento do PIB. Por fim, em relação ao Iene, o mercado nipónico apresentava-se instável numa altura em que os investidores esperavam pelos resultados das empresas. Por outro lado, a economia japonesa continua a ser afectada pelo aumento do imposto sobre as vendas, além de um declínio contínuo das exportações, apresentando uma tendência de crescimento lento nos seus parceiros comerciais mais importantes, principalmente a China.

Os bancos centrais dos países mais desenvolvidos (BCE, Fed, BoE e BoJ) decidiram manter inalteradas as taxas de juro de política. Contudo, a Fed poderá até ao final do ano optar por retirar os estímulos monetários, aumentando, possivelmente, no início do próximo ano, as taxas de juro directoras. Efectivamente, o programa de compras de títulos de dívida pública e o alargamento do balanço da Fed deverão terminar até ao final do ano. Na última reunião do Comité de Política Monetária a Fed melhorou consideravelmente a sua apreciação relativamente ao ritmo de andamento dos preços ao consumidor, afirmando que a tendência de médio prazo regressou ao patamar de 2,00%.

Economias Emergentes

Nos mercados emergentes e em desenvolvimento, prevê-se uma desaceleração no crescimento para 4,60% em 2014 e um fortalecimento de 5,20% em 2015. Destaca-se o caso da China, onde as autoridades têm recorrido a medidas de política para apoiar a actividade no II semestre do ano, incluindo benefícios fiscais para pequenas e médias empresas (PME's), aumento dos gastos fiscais e infra-estruturas. Como resultado, o crescimento em 2014 deverá ser de 7,40%. Relativamente à Rússia, o problema está relacionado com as tensões em território ucraniano. As estimativas para o PIB da Rússia recuam 1,10 p.p., esperando-se que a economia fique estagnada em 0,20%.

No período em análise, variação do IPC acelerou na Índia 0,65 p.p. para  7,96%; desacelerou no Brasil 0,02 p.p. para  6,50% (dentro do limite superior objectivo do Banco Central do Brasil) e na Rússia 0,30 p.p. para  7,50%; e manteve-se estável na China em 2,30%.

No mercado cambial, o Real, o Rublo e a Rúpia da Índia depreciaram face ao Dólar, ao registarem perdas nominais de 2,20%, 4,89% e 0,62%, respectivamente, no mês de Julho. Já o Renminbi da China manteve a tendência de apreciação (0,47%).

Com  excepção da Rússia, que incrementou a sua taxa de juro de política em 0,50 p.p. para  8,0%, os restantes bancos centrais dos países emergentes seleccionados mantiveram, em Julho, as taxas de juro de referência.

Economias da SADC

Na África Subsaariana, o crescimento económico mantém-se elevado (5,40% em 2014 e 5,80% em 2015), suportado em parte por fluxos de capital estrangeiro orientados para sectores de exploração de recursos minerais e para o desenvolvimento de infra-estruturas. Em 2014, a região poderá também beneficiar de um melhor contexto externo para as exportações, ainda que se afigure incerto o cenário de recuperação das economias da Zona Euro. As reformas estruturais em curso deverão aumentar o crescimento potencial em alguns países. Afiguram-se melhores perspectivas nos países exportadores de petróleo e nos países mais pobres, o que deverá impulsionar o crescimento da região.

Especificamente, no que concerne às economias do bloco da SADC, a informação referente ao mês de Julho indica que a inflação registou um resultado misto, tendo apresentado uma variação negativa na África do Sul (-0,30 p.p. para 6,30%), Botswana (-0,05 p.p. para 4,60% ), Maurícias (-0,16 p.p. para 3,14%) e Namíbia (-0,59 p.p. 5,51%), contra uma aceleração em Moçambique (+0,20 p.p. para 2,95%), Seychelles (+0,36 p.p. para 1,50%), Tanzânia e Zâmbia (+0,10 p.p. para 6,50% e 8,00% respectivamente), e Zimbabué (+0,39 p.p. para 0,31%).

No mercado cambial, o Dólar continua a trajectória de ganhos em relação às moedas dos países da região, com excepção do Metical de Moçambique e do Kwacha da Zâmbia que vem observando ganhos nominais em relação a esta moeda, 3,40% e 2,74%, respectivamente. A Rúpia das Seychelles permaneceu constante.

Os bancos centrais da África do Sul e do Malawi alteraram as suas taxas de juro de política. Enquanto o Banco Central da África do Sul subiu a taxa de referência em 0,25 p.b. para  5,75%; o Banco Central do Malawi desceu as taxas directoras em 2,50 p.p., para  22,5%. As restantes economias da região optaram pela manutenção da sua política monetária.

Commodities

Vários factores concorrem para uma relativa estabilidade dos preços das commodities, nomeadamente: i) existe um desempenho económico melhor, mas não como se previa, sobretudo ao nível das economias emergentes e ii) a não existência de constrangimentos significativos no lado da oferta. 

Constituem riscos para os preços das commodities, a revisão em baixa do crescimento respeitante às economias emergentes. Por outro lado, persistem os factores geopolíticos, condicionando sobretudo o sector energético, devido à instabilidade entre a Rússia e a Ucrânia, para além dos conflitos no Médio Oriente, volatilidade do Dólar e as condições climatéricas globais (em relação aos bens alimentares).

Petróleo e Gás Natural

Em Julho, os preços médios de petróleo registaram uma queda quando comparado com o mês anterior, tendo o Brent se situado e 108,19 dólares por barril, (-3,43%); as Ramas angolanas em 104,51 dólares por barril (-5,47%); e o WTI passou para  102,39 dólares por barril (-2,66%). Os preços do petróleo registaram uma queda devido à reduzida procura, à redução das margens obtidas com a venda de refinados, à retoma das exportações líbias e o atenuar dos riscos geopolíticos, com o aliviar da tensão geopolítica entre Ucrânia e Rússia.

Os preços do gás natural, medido pelo Henry Hub, também reduziram (-14,99%), sobretudo influenciados pela fluidez da oferta da Rússia.

Bens Alimentares

O índice de preços de alimentos da FAO foi em média de 203,93 pontos em Julho de 2014, menos 4,4 pontos (ou -2,12%), comparativamente a Junho. Enquanto os preços da carne subiram pelo quinto mês consecutivo, o açúcar manteve-se estável. As quedas acentuadas nos cereais, óleos e produtos lácteos contribuíram para a diminuição do índice de preços de alimentos da FAO, o seu nível mais baixo desde o início do ano. O aumento dos preços da carne foi devido principalmente a um forte aumento dos preços da carne bovina na Austrália, onde se reduziu a oferta para exportação, e continuou a verificar-se uma forte procura pelas importações da Ásia. Nos últimos três meses, os preços internacionais do açúcar têm sido relativamente voláteis, sem direcção clara no decurso da incerteza associada à produção de açúcar no Brasil. A recente queda dos preços dos cereais reflectiu uma diminuição significativa nos preços internacionais de milho e trigo, uma reacção a excelentes perspectivas animadoras de produção em muitos dos principais países produtores e oferta de produtos exportáveis no exercício de 2014/15. A queda do índice dos óleos vegetais continuou a ser impulsionada principalmente pelos preços da soja e óleo de palma. Os preços do óleo de soja caíram principalmente em resposta as boas perspectivas das colheitas nos EUA, bem como as disponibilidades abundantes na América do Sul. Os preços dos lacticínios continuam a cair reflectindo a redução da procura por importações e o excesso de disponibilidade das exportações. Após forte crescimento da produção este ano, as exportações aumentaram na UE, enquanto se perspectiva um início favorável para a nova época na Oceânia. 


II. DESENVOLVIMENTOS RECENTES DA ECONOMIA NACIONAL 

Inflação

Em Julho, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de inflação foi de 0,61%, após uma variação inferior de 0,57% em Junho. Igualmente a inflação homóloga acelerou para 6,98%, tendo a Classe 01 – “Alimentação e Bebidas Não-Alcoólicas”, sido determinante no comportamento da inflação no mês em análise, e contribuído com 0,20 p.p. (32,78%) para a inflação mensal observada, um valor superior em 0,01 p.p. quando comparado com a contribuição do mês anterior. A cebola, o carapau Seco e o chouriço foram os produtos que mais contribuíram para a Classe 01.

Em termos de variação, a Classe 05 - “Mobiliário, Equipamento Doméstico e Manutenção,” registou a maior variação de preços (1,41%). As classes que menos variaram foram a Classe 08 – Comunicações (0,00%) e a Classe 09 – Lazer, Recreação e Cultura.

A inflação acumulada até ao mês de Julho de 2014 situou-se em 4,13%, uma diminuição quando comparada com 4,81% observado no mesmo período de 2013. Ainda de acordo com os índices de preços do INE, os produtos da cesta básica que mais variaram foram o sabão (1,24%), a massa alimentar (0,81%) e o feijão castanho (0,78%).

Contas Monetárias

No sector monetário, dados relativos a Julho de 2014 mostram que a Base Monetária em moeda nacional registou um saldo de Kz 853.549,27 milhões, que correspondeu a uma diminuição mensal de Kz 14.130,06 milhões (1,68%), reflectido na diminuição das Notas e Moedas em Circulação em Kz 7.617,52 milhões (1,99%) e dos Depósitos dos Bancos Comerciais em moeda nacional em Kz 6.512,54 milhões (1,43%). Em 2014 (Janeiro – Agosto), a Base Monetária em moeda nacional expandiu em Kz 3.140,80 milhões (0,37%).

As contas monetárias de Julho indicam uma expansão mensal dos depósitos totais do sistema bancário em cerca de Kz 28.122,31 milhões (0,64%), uma expansão do crédito à economia em Kz 114.901,07 milhões (3,61%), do crédito do sector privado em Kz 64.587,26 milhões (2,10%) e do crédito às empresas públicas em Kz 50.313,80 milhões (51,41%). Enquanto isso, o agregado monetário mais amplo (M3), composto pelas notas e moedas em circulação, pelos depósitos à ordem e a prazo e pelos outros instrumentos financeiros, aumentou, no mês de Julho, em Kz 47.171,53 milhões (1,00%), para Kz 4.762.939,40 milhões.

No Mercado Monetário, as taxas de juros média ponderadas da subscrição dos Bilhetes do Tesouro (BT’s) com a maturidade de 91, 182 e 364 dias aumentaram em 51 p.b., 04 p.b., e em 45 p.b., atingindo 4,15%, 4,42% e 5,87%, respectivamente. Por sua vez, a taxa LUIBOR Overnight diminuiu em 05 p.b. ao atingir 3,31% ao ano. Nas maturidades de 3 e 12 meses, a taxa fixou-se em 7,33% e 9,56%, respectivamente.

No mês em análise, o stock de reservas internacionais brutas situou-se em USD 30.516,70 milhões, representando uma diminuição de 2,93% (USD 921,69 milhões), quando comparado com o mês anterior.

A taxa de câmbio média de referência do Kwanza em relação ao Dólar norte-americano situou-se em 97,08 Kwanzas no final do mês de Julho.


III. DECISÕES DO COMITÉ DE POLÍTICA MONETÁRIA

Com base na análise efectuada à evolução dos principais indicadores macroeconómicos e a sua perspectiva de evolução, o Comité de Política Monetária decidiu manter:  

- A Taxa Básica de Juro - Taxa BNA - em 8,75% ao ano; 
- A Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez em 9,75% ao ano;
- A Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez em 1,75% ao ano.


A próxima reunião do Comité de Política Monetária terá lugar no dia 29 de Setembro de 2014.



Luanda, 28 de Agosto de 2014.