Notas de Imprensa

28 de Julho de 2014

Comité de Política Monetária

O Comité de Política Monetária do Banco Nacional de Angola (CPM) reuniu-se no dia 28 de Julho, na sua trigésima quarta sessão ordinária, a sétima do ano de 2014.

Com vista à tomada de medidas de política monetária que concorram para a manutenção da estabilidade de preços na economia nacional, foi analisada a evolução da inflação, da economia real, das contas fiscais e monetárias, bem como a informação recente sobre a conjuntura económica internacional, incluindo a da região SADC. A análise foi feita com base em informação referente ao mês de Junho de 2014.

I.    DESENVOLVIMENTOS RECENTES DAS ECONOMIAS: INTERNACIONAL E REGIONAL

Depois da OCDE, o Banco Mundial reviu em baixa a previsão de crescimento da economia mundial para 2,80% em 2014 (valor abaixo de 3,00% apontado em Janeiro deste ano), seguida de avanços de 3,40% e 3,50% nos anos seguintes, de acordo com o comunicado de imprensa relativo ao "Global Economic Prospects" divulgado no dia 10 de Junho. Vários factores contribuíram para esse ritmo económico no início do ano. Desde as condições climatéricas adversas nos EUA durante o Inverno, à turbulência nos mercados financeiros com a introdução do tapering por parte da Reserva Federal Norte-americana (Fed), e à tensão na Crimeia. Estes acontecimentos contagiaram as perspectivas e a confiança dos agentes económicos, atrasando assim o ritmo da actividade económica, que só deverá ganhar maior velocidade em 2015 e 2016.

No mesmo sentido, em Julho o Fundo Monetário Internacional divulgou as suas previsões de crescimento Mundial para 2014, que apontam para uma taxa de 3,4% em 2014 (menos 0,3 p.p. comparativamente à previsão de Abril deste ano). No seu documento World Economic Outlook mais recente (publicado a 24 de Julho de 2014), o FMI vem reforçar a ideia de que a retoma económica para a economia mundial em 2014 proceder-se-á de forma mais lenta, com um I trimestre mais negativo do que se esperava nas principais economias desenvolvidas e em desenvolvimento, sobretudo nos EUA e na Rússia. Todavia espera-se que no II trimestre de 2014 a economia mundial registe melhorias. Para 2015, mantém-se a previsão de 4%, apesar de se esperar um crescimento um pouco mais forte que o esperado em algumas economias avançadas.

Economias Desenvolvidas

Os indicadores económicos divulgados em Junho de 2014, mostram que a economia mundial dá sinais de retoma lenta, tendo as perspectivas para as economias avançadas contraído mais do que o esperado no I trimestre de 2014. O crescimento do PIB nos EUA ficou abaixo do previsto em 50 p.b. situando-se em 1,5% no I trimestre de 2014. Já a taxa de desemprego em Junho recuou nos EUA para 6,10%, contra 6,30% no mês anterior. Concomitantemente, o crescimento anual do PIB para os primeiros três meses de 2014 no Reino Unido foi revisto para 3,00%, contra anterior 3,10%. No que toca à inflação, na Zona Euro manteve-se em 0,50% em Junho, continuando os receios de uma deflação neste grupo de países, sobretudo nas economias periféricas. No mês de Junho, a inflação voltou a situar-se em 1,90% no Reino Unido (+0,40 p.p.). No mercado cambial, as três moedas (Euro, Libra e Iene) apreciaram-se perante o Dólar norte-americano. Com a excepção do BCE, que decidiu reduzir a sua taxa directora em 10 p.b. para 0,15% e colocou a taxa de depósitos em -0,10%, os restantes países analisados mantiveram as suas taxas de juro directoras.

A previsão do FMI publicada em Julho, aponta para uma taxa de crescimento de 1,8% para as economias avançadas em 2014, com os EUA a crescer 1,7% (aquém de 2,8% projectado no final do ano passado), a Zona Euro a crescer 1,1% e o Japão a crescer 1,6%.
 
Economias Emergentes

Relativamente às economias emergentes, é de destacar uma nova desaceleração no crescimento económico da China, para 7,4% em Março, após 7,7% em finais de 2013, com o sector exportador a ser afectado pela queda do preço das matérias-primas no mercado internacional. Em Junho de 2014, a inflação anual acelerou no Brasil (+0,15 p.p.), na Rússia (+0,20 p.p), e desacelerou na Índia (-0,97 p.p.) e na China (-0,20 p.p.), situando-se em 6,52%, 7,80%, 7,31% e 2,30%, respectivamente. No mercado cambial, o Dólar norte-americano apreciou-se face à Rúpia Indiana (1,82%), mas depreciou face ao Rublo Russo (2,66%), ao Renminbi Chinês (0,71%) e ao Real Brasileiro (1,22%). Já os bancos centrais deste grupo de economias, decidiram manter as suas taxas de juro directoras.

Nas economias emergentes e em desenvolvimento, o FMI prevê uma taxa de crescimento de 4,6% em 2014 e um fortalecimento de 5,2% em 2015, destacando-se a revisão da taxa de crescimento da Rússia que poderá situar-se em 0,2% (menos 1,1 p.p.), enquanto para as restantes economias prevê-se: 7,4% para China, 1,9% para o Brasil e 5,4% para a Índia.
 
Economias da SADC

Os dados económicos relativos às economias da SADC evidenciam um abrandamento em 30 p.b. da actividade económica nas Maurícias no I trimestre de 2014, para 2,40%, comparativamente com o trimestre anterior, enquanto que na República Democrática do Congo (RDC) estima-se um crescimento de 8,8% do PIB real em 2014 contra uma projecção de 9,5%. Esta revisão em baixa do desempenho económico está ligada ao comportamento da procura mundial por matérias-primas.
De acordo com os dados disponíveis, em Junho de 2014, a taxa de inflação teve um comportamento misto na região da SADC. Desacelerou nas Ilhas Maurícias (3,30%), Seychelles (1,10%), Malawi (22,50%), Moçambique (2,75%) e na Tanzânia (6,4%). Contudo, acelerou na Namíbia (6,10%), Zâmbia (7,90%) e registou uma variação ligeira no Botswana (4,60%). No mercado cambial, o Dólar continua a depreciar-se em relação às moedas dos países da região, com excepção à RDC (0,07%), países da SACU, Seychelles e Tanzânia. Por fim, os bancos centrais da SADC mantiveram as suas taxas de juro directoras e a política monetária manteve-se inalterada.

Commodities

No mercado das commodities, entre os vários acontecimentos que estão a influenciar os preços em Junho de 2014, destacam-se: i) a tensão geopolítica no Iraque; ii) as perspectivas de boas colheitas e aumento da oferta de alimentos; iii) o conflito entre a Ucrânia e a Rússia; iv) interrupções de fornecimento de petróleo da Líbia; e v) o reforço das reservas estratégicas por parte da China. Estes factores contribuíram para elevar os preços no mercado energético, enquanto os preços dos alimentos foram influenciados pela expectativa de aumento da oferta. Neste contexto, o índice de preços dos alimentos da FAO caiu face ao mês anterior, derivado de uma queda acentuada nos preços de cereais e dos óleos vegetais, embora as cotações do açúcar e dos produtos lácteos tenham diminuído.

Petróleo e Gás Natural

Em Junho, os preços médios de petróleo registaram um aumento, quando comparado com o mês anterior, tendo o Brent se situado em USD 111,97 por barril, (+2,54%); as Ramas angolanas em USD 110,20 por barril; e o WTI passou para USD 105,15 por barril (+3,31%). A subida dos preços futuros do petróleo foi causada pelos temores de interrupção de fornecimento devido às crises no Iraque e Ucrânia, além da tensão em curso na Líbia. Os preços do petróleo foram igualmente impulsionados pelo aumento das encomendas de produtos industriais nos EUA e crescimento das exportações chinesas (em 7,0%). Contrariamente, o preço do gás natural deixou de apresentar uma pressão de subida, situando-se em 4,46 USD/MMBut (menos 1,78% face ao mês anterior). No entanto, existe uma questão que poderá justificar o preço nos níveis actuais: os stocks armazenados nos EUA encontram-se no valor mais baixo desde 2003, resultante das condições climatéricas rigorosas no último Inverno.

Bens Alimentares

O Índice de preços de Alimentos da FAO foi em média 206,0 pontos em Junho de 2014, uma queda de 3,8 pontos (-1,85%) face a Maio e cerca de 6 pontos (-2,85%), em relação a Junho de 2013. O declínio pelo terceiro mês consecutivo, foi em grande parte derivado de uma queda acentuada nos preços de cereais e dos óleos vegetais, embora as cotações do açúcar e de produtos lácteos tenham diminuído. A queda dos preços dos cereais foi causada principalmente por um enfraquecimento das cotações de trigo e milho, as quais caíram perto de 7,00%, reflexo de melhoria nas perspectivas de cultivo mundial e preocupações decrescentes sobre a interrupção dos embarques da Ucrânia. Os preços do óleo de palma caíram para um mínimo de nove meses. Da mesma forma, os preços do óleo de soja caíram para um mínimo de quatro anos dadas as disponibilidades abundantes na América do Sul e da antecipação de um record de produção mundial de soja no exercício de 2014/15. A queda dos preços dos produtos lácteos foi substancialmente menor do que nos três meses anteriores, o que sugere que o ajuste de preços pode estar a chegar ao fim. Contrariamente, houve um aumento dos preços da carne, devido principalmente a um reforço contínuo dos preços da carne de porco, com os stocks mundiais a serem fustigados nos últimos meses por um surto de epidemia suína nos EUA. Já o preço do açúcar continua pressionado pelos efeitos do El Niño, podendo agravar a queda antecipada da produção global. A previsão de chuvas abaixo da média (nomeadamente, derivado das monções) está a apontar para uma possível queda da produção na Índia, o segundo maior produtor mundial de açúcar depois do Brasil, e  maior consumidor mundial

II.    DESENVOLVIMENTOS RECENTES DA ECONOMIA NACIONAL

Inflação

Em Junho, de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de inflação foi de 0,57%, após uma variação de 0,62% em Maio. De igual modo, a inflação homóloga retrocedeu para 6,89%, tendo a Classe 01 – “Alimentação e Bebidas Não-Alcoólicas”, sido determinante no comportamento da inflação no mês em análise, e contribuído com 0,19 p.p. (32,69%) para a inflação mensal observada, um valor inferior em 0,05 p.p. quando comparado com a contribuição do mês anterior. As Miudezas de vaca, as Coxas de frango e a Carne de primeira foram os produtos que mais contribuíram para a Classe 01.

Em termos de variação, a Classe 03 - “Vestuário e Calçado” registou a maior variação de preços (1,35%).

A inflação acumulada até ao mês de Junho de 2014 situou-se em 3,50%, uma diminuição quando comparada com 4,27% observado no mesmo período de 2013. Ainda de acordo com os índices de preços do INE, os produtos da cesta básica que mais variaram foram o Sabão (1,29%), a Massa Alimentar (1,28%) e o Açúcar branco (0,36%).

Contas Monetárias

No sector monetário, os dados relativos a Junho de 2014 mostram que a Base Monetária em moeda nacional registou um saldo de Kz 839.419,21 milhões, que correspondeu a uma diminuição mensal de Kz 1.366,20 milhões (0,16%), reflectido na diminuição dos Depósitos dos Bancos Comerciais em moeda nacional em Kz 15.107,77 milhões (3,21%). Em termos acumulados, a Base Monetária em moeda nacional contraiu em Kz 10.989,25 milhões (1,29%).

As contas monetárias de Junho indicam uma contracção mensal dos depósitos totais do sistema bancário em cerca de Kz 152.246,93 milhões (3,34%), uma expansão do crédito à economia em Kz 32.975,89 milhões (1,06%), do crédito do sector privado em Kz 35.181,79 milhões (1,17%) e uma contracção do crédito às empresas públicas em Kz 2.205,90 milhões (2,18%). Enquanto isso, o agregado monetário mais amplo (M3), composto pelas notas e moedas em circulação, pelos depósitos à ordem e a prazo e pelos outros instrumentos financeiros, diminuiu, no mês de Junho, em Kz 149.045,56 milhões (3,05%), para Kz 4.733.499,80 milhões.

No Mercado Monetário, as taxas de juros médias ponderadas da subscrição dos Bilhetes do Tesouro (BT’s) com a maturidade de 91 dias diminuíram em 06 p.b., ao passo que para as maturidades de 182 e 364 dias aumentaram em 43 e 58 p.b., atingindo 3,64%, 4,37% e 5,41%, respectivamente. Por sua vez, a taxa LUIBOR Overnight diminuiu em 02 p.b. ao atingir 2,94% ao ano. Nas maturidades de 3 e 12 meses, a taxa fixou-se em 7,32% e 9,57%, respectivamente.

No mês em análise, o stock de reservas internacionais brutas situou-se em USD 31.438,40 milhões, representando uma diminuição de 2,11% (USD 677,49 milhões), quando comparado com o mês anterior.

Em Junho, os bancos comerciais adquiriram divisas no valor de USD 3.617 milhões no mercado cambial.

A taxa de câmbio média de referência do Kwanza em relação ao Dólar norte-americano situou-se em 97,82 Kwanzas no final do mês de Junho.

III.     DECISÕES DO COMITÉ DE POLÍTICA MONETÁRIA


A trajectória descendente da taxa de inflação, assim como a perspectiva de manutenção dessa tendência propiciam a redução das taxas de juro permitindo estimular a concessão de crédito ao sector real da economia de modo mais favorável.   

Neste sentido, da análise efectuada, o Comité de Política Monetária decidiu: 
  • Reduzir a Taxa Básica de Juro - Taxa BNA, de 9,25% para 8,75% ao ano;
  • Reduzir a Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez de 10% para 9,75% ao ano;
  • Manter a Taxa de Juro da Facilidade Permanente de Absorção de Liquidez em 1,75% ao ano.


A próxima reunião do Comité de Política Monetária terá lugar no dia 25 de Agosto de 2014.